CASO CLÍNICO: Tratamento com duplo eletrodo para dor persistente

Sucesso após tentativas de abordagens variadas e disciplina da paciente


O caso que trago neste post é extremamente complexo e interessante, de uma paciente que realizou sua primeira cirurgia para retirada de hérnia de disco há mais ou menos 10 anos. O procedimento eleito na época, pela equipe que a acompanhou, foi uma artrodese lombar de um segmento, mas, infelizmente, não houve resultado satisfatório, sobretudo em relação ao quadro de dor.


Quando veio a mim, analisamos cuidadosamente a situação e optamos por iniciar um trabalho de fortalecimento muscular e tratamento conservador contínuo (sem intervenção cirúrgica) por cerca de dois anos. Após isso, tentamos a retirada do material da primeira cirurgia e extensão da artrodese para dois segmentos acima. O objetivo era aumentar a estabilidade lombar e melhorar as queixas álgicas da paciente. Com essa intervenção, ocorreu uma discreta melhora, mas ainda sem resultado clínico satisfatório.


Seis meses após esse período, tentamos um procedimento minimamente invasivo para rizotomia de articulações sacroilíacas, ou seja, denervação por queimadura térmica da sensibilidade das articulações sacroilíacas (região sacral, abaixo da lombar). O objetivo era interromper a comunicação de dor que os nervos periféricos enviavam ao sistema nervoso central, para melhorar a qualidade de vida da mesma. Infelizmente, ainda assim o resultado clínico foi insatisfatório.


Há cerca de quatro anos, após excluídas as demais tentativas de tratamentos, tentamos a neuroestimulação medular, com o implante de um eletrodo torácico e gerador lombar, como é possível observar na parte superior da foto. A partir daí a paciente experimentou uma melhora moderada na qualidade de vida e um alívio parcial dos sintomas.


Vale fazer uma pausa na narrativa para ressaltar o quanto é importante o relacionamento entre médico e paciente, para a devida investigação e condução de tratamentos. Elenquei as tentativas de abordagens acima, principalmente, como uma demonstração do que os médicos podem encontrar em relação às patologias da coluna: são complexas e, na maioria das vezes, de difícil controle, difícil contenção e tratamento. O médico se vê em uma posição relativamente delicada, pois as chances de cura vêm das tentativas que nem sempre acontecem de imediato, mas é preciso continuar! Assumimos o atendimento quase como uma missão que precisa ser cumprida, pois se não for assim o paciente continua com dor e sofrimento.


Cirurgia com novo gerador que permite dois eletrodos


A esperança aumentou recentemente, quando tivemos a notícia de inovação de um neuroestimulador cujo gerador permite a instalação de dois eletrodos simultâneos. Ou seja, dois eletrodos independentes ligados no mesmo gerador para permitir controle de dor e estímulo medular em áreas distantes, praticamente sem limitação das possibilidades de cobertura da dor.



Com esta novidade, optamos por realizar uma nova abordagem cirúrgica para usar este gerador e implantar um novo eletrodo. Conforme é possível ver nas imagens, o primeiro eletrodo é o da cirurgia anterior e o segundo eletrodo, menor, é desta segunda cirurgia. Os quatro fios foram ligados ao mesmo gerador, que permite complexas programações e foi implantado na região glútea.


Finalmente, para o nosso alívio, a estratégia deu certo! Graças a Deus a paciente apresenta melhora quase total da dor: uma pausa no sofrimento e merecida compensação depois de todo o esforço físico e determinação que ela apresentou nestes anos de enfrentamento da doença.


Após tanto tempo, ela e sua família deixaram de ter uma relação profissional comigo, nos tornamos amigos! Observei cada evolução no tratamento conservador e atividade física contínua, onde pude constatar, sem dúvidas, que é uma das pessoas mais esforçadas e resilientes que tive o prazer de encontrar na minha carreira médica.


Diante disso, gostaria de agradecer aos cientistas do mundo pelas inovações tecnológicas, a Deus pela capacidade do ser humano de aprender e evoluir, a esta paciente, especialmente, por seu grande exemplo que deu tanto a mim quanto às pessoas que vivem ao redor e reflete na sociedade. Agradeço também a minha equipe por toda a ajuda durante este período. Finalmente podemos considerar que vencemos esta batalha. Parabéns a todos!


Abraços,

Dr. André Evaristo Marcondes

Atendimento presencial e à distancia

São Paulo, 15 de janeiro de 2021