CASO CLÍNICO | Correção de Escoliose Degenerativa

Conheça este interessante desafio cirúrgico


No caso que apresento hoje a você, eu e minha equipe enfrentamos um grande desafio: uma paciente com Escoliose Degenerativa gravíssima, que teve desencadeada uma série de outras complicações na sua coluna. Novamente, você vai observar como é importante o preparo médico para moldar o tratamento à necessidade e condição de saúde do paciente. Boa leitura!


A Escoliose Degenerativa gravíssima, diferente da Escoliose Idiopática — que é uma deficiência do crescimento do adolescente — é caracterizada por uma degeneração que progressivamente acomete os segmentos da coluna, mas de forma desigual.


A doença deixou a paciente com um grave desvio da coluna vertebral no plano coronal (visto de frente) com o tronco totalmente descompensado e caído para um lado. Neste cenário, ela tinha dores excruciantes na coluna lombar e torácica, isso também levou ao desenvolvimento de Espondilolistese grau II, no nível de L5/S1. Esta condição faz com que uma vértebra escorregue sobre a outra e, uma vez fora do lugar, o componente provocou também compressão medular severa, com irradiação importante para membros inferiores, perda de força muscular e sensibilidade, além de marcha claudicante (caminhar alterado, como se mancando das duas pernas, em decorrência da compressão medular).


Casos como este são extremamente desafiadores, não só pela dificuldade da reconstrução biomecânica, tanto no plano de frente quanto de perfil, mas também por serem procedimentos de grande porte, com maiores riscos à integridade física do paciente.


Como foi o procedimento cirúrgico


Após minuciosa análise, planejamos que a intervenção cirúrgica ocorresse em duas etapas, em dias diferentes.


Começamos, então, com abordagem por via anterior (transabdominal) para reconfecção do espaço discal dos níveis de L3/L4, L4/L5, L5/S1 e colocação de espaçador nesses três segmentos. Reconstruímos a lordose lombar (curvatura fisiológica da coluna lombar) e isso também ajudou para o melhor ajuste do balanço coronal.


Devido a agressividade do procedimento por via anterior, neste caso específico, e a necessidade de múltiplos cortes no osso para conseguir mobilidade da curva escoliótica, encerramos a primeira parte e a paciente foi encaminhada para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI), para a recuperação clínica do procedimento.


Na segunda intervenção, durante o preparo e posicionamento para a cirurgia por via posterior (pelas costas), observamos que a paciente apresentou constante perda de força muscular. Isso nos levou à necessidade de um segundo e rápido procedimento para a descompressão das raízes de L2/L3, L3/L4 à direita sem estabilização posterior nesse tempo cirúrgico. Foram necessários alguns dias a mais de internação, mas isso permitiu a total recuperação clínica da paciente.


Neste período, ela já começou a caminhar no próprio ambiente hospitalar para adaptar-se ao novo balanço sagital e à nova estrutura corpórea. Imagino o sentimento que essa mudança brusca pode causar. Ao mesmo tempo em que deve haver um estranhamento do corpo à nova postura, deve ser maravilhoso olhar em volta e reconhecer em si mesmo a própria transformação em busca da postura correta.


Finalmente, na terceira intervenção, realizamos a abordagem por via posterior para a fixação e correção total das deformidades, como visto nas últimas imagens.





Como resultado, promovemos uma importante correção da coluna vertebral em todos os planos (frente e perfil), com o retorno da coluna toraco-lombar e, consequentemente, da coluna cervical à posição normal. Na restauração do formato correto da coluna, liberamos as raízes lombares, a paciente ficou livre das dores excruciantes e isso permitiu sua caminhada com eficiência, além de notável melhora no padrão estético.


Em casa, a paciente está satisfeita e mesmo com pouco tempo de cirurgia já está apta para a reabilitação fisioterápica e atividades físicas lentas, mas graduais.


Reflexões finais


É comovente até para os médicos lidarem com um caso tão complicado, onde uma doença prejudica pouco a pouco a vida de alguém e ainda gera novos problemas a cada evolução. Caberá a cada um encontrar o seu equilíbrio para resolver cada etapa e devolver a saúde e a qualidade de vida do paciente.


Não é rotineiro ver um caso como este, de tamanha complexidade. Mas quando um cirurgião se depara com este cenário, é exigido altíssimo conhecimento, parcimônia e bom senso para se atingir um resultado como este.


Estou muito satisfeito pelo trabalho, muito feliz pelo momento de alívio que a paciente vive e muito grato à minha equipe e a Deus, por me permitir ajudar tantas pessoas em condições similares.


Se você tem problemas na coluna, não desanime de buscar uma ajuda especializada, pois existe grande chance de você ser tratado como merece.


Abraços,


Dr. André Evaristo Marcondes


Atendimento presencial e à distância


São Paulo, 03 de março de 2021