CASO CLÍNICO | Reconstrução cervical tardia pós ressecção de tumor cervical agressivo

Confira a seguir um caso extremamente raro e interessante, de uma paciente jovem e com nível superior completo relacionado a área da saúde, o que sempre traz preocupações a mais. Me acompanhe nessa leitura!


Entenda o caso

Tendo apresentado durante a adolescência tumor benigno, mas agressivo, conhecido como osteoblastoma em arco posterior dos níveis de C2-C3, o que significa um tumor de crescimento rápido com risco de malignização e que a longo prazo iria causar compressão grave de estruturas medulares podendo levar a paciente a perda total de movimentos, inclusive a óbito devido à altura em que a lesão tumoral se encontrava.


Tentativas de melhorias

Paciente foi operada na época da adolescência de maneira brilhante, com ressecção de toda a massa tumoral que não apresentou recidiva e foi considerada curada do ponto de vista oncológico; no entanto, desde então passou a apresentar quadro de cervicalgia crônica (dor cervical) de forte intensidade com irradiação esporádica para membros superiores e ombros, incapacitando as atividades habituais e trazendo extremo desconforto a paciente, tendo diagnóstico tardio na fase adulta jovem de discopatia no segmento C3-C4 em decorrência da sobrecarga da primeira cirurgia oncológica associado à destruição e degeneração total do disco C2- C3 com severa instabilidade (movimentação aumentada anormal) no segmento C2-C3, acarretando quadro desolador de dor crônica e incapacitante em paciente jovem. Para a paciente foi tentada todos os tipos de tratamentos conservadores, desde medicação analgésica de alta potência até fortalecimento muscular, passando por bloqueios foraminais e facetários e procedimentos de rizotomia para denervação neural objetivando alívio da dor; sendo todos esses tratamentos infrutíferos e apresentando pouca ou nenhuma melhora do quadro.

Tais casos, extremamente raros e complexos, sempre trazem enormes desafios, não só pela dificuldade na tomada de decisões, como pela ausência de literatura médica extensa pregressa que suporte as decisões tomadas, ficando assim um peso enorme nas costas do cirurgião responsável, que além da resolução do quadro em questão ainda tem que lidar com as dúvidas e angústias éticas pertinentes a esse tipo de situação.


Escolha do tipo de procedimento cirúrgico

Nesse caso foi decidido por artrodese (fusão de segmentos) entre os níveis C2-C3 onde apresentava grande instabilidade através de cage com dupla trava, onde enxerto ósseo foi colocado entre as vértebras suportado por uma prótese rígida para que ocorra consolidação desse segmento resolvendo assim a instabilidade; associado à retirada do disco doente C3C4 com estabilização desse segmento através de artroplastia "prótese móvel" cervical de terceira geração com manutenção normal do movimento nesse segmento.


Vale ressaltar que tanto a prótese rígida para artrodese quanto o implante para a artroplastia são considerados lordóticos, sendo assim a porção anterior do implante é bem maior do que a porção posterior, o que acarreta uma curvatura na coluna cervical trazendo a cabeça para a posição normal e resolvendo assim, pelo menos de maneira teórica, a questão da instabilidade e do desvio cervical apresentado pela paciente.



Pós-cirurgia e recuperação

A paciente hoje encontra-se próximo de quatro semanas de pós-operatório, já sendo orientada a retirar o colar cervical e iniciar mobilização mais severa da região, com prognóstico de retorno às atividades profissionais e físicas habituais e com a esperança de melhora significativa, senão total, do quadro álgico apresentado no pré-operatório.


Casos como esse, onde o desafio intelectual e de execução são gritantes sempre trazem imensa satisfação quando terminados com sucesso como o apresentado acima, mas sem dúvida desencadeiam um imenso desgaste físico e psicológico ao cirurgião envolvido nesse tipo de procedimento.


Por isso que sempre gosto da seguinte máxima: a cirurgia uma vez realizada sempre deixa duas marcas, uma cicatriz no paciente e uma no cirurgião que a executou.


Agradeço a Deus pela oportunidade de poder lidar com casos tão complexos e de ter ajuda dele em campo para que tais procedimentos terminem de maneira satisfatória dentro do que a gravidade da patologia permite.


Agradeço ainda a minha equipe e a estrutura hospitalar de excelência da qual faço parte, sem as quais procedimentos de tais complexidades seriam impossíveis de serem realizados.


Abraços,


Dr. André Evaristo Marcondes

Atendimento presencial e à distância

São Paulo, 15 de janeiro de 2022